Pobre não tem Cultura Alimentar

Ontem eu entreguei um bolo a um morador de rua.
E ele me disse: vou pegar o bolo, mas eu tô com vontade mesmo
é de comer arroz com feijão.

Depois desse encontro hoje, eu lembrei da resposta que eu queria dar a uma pessoa que eu respeito muito. Eu não tenho como marcar um café e conversar olho no olho com essa pessoa que é como a gente devia dar respostas. Mas eu estive com ela em um evento onde repetiu mais de uma vez uma afirmação bem impactante: Pobre não tem cultura alimentar.


Passado um tempo do nosso breve encontro, hoje eu sentei e resolvi fazer esse monólogo com a expectativa de que quem me ler nunca fale essa frase. E na esperança de que essa pessoa também desista dessa afirmação depois de acessar esse texto.



Cultura. Bem difícil mesmo de definir. Apesar de ter estudiosos que questionam a pluralidade do termo, já foram levantados mais de150 significados para cultura. Mas, no geral, o conceito implica em um tipo de herança social transmitida historicamente. É uma herança legítima que todo ser humano que vive em sociedade recebe. Em qualquer grupo social.

O conceito implica em um tipo de herança social transmitida historicamente. É uma herança legítima que todo ser humano que vive em sociedade recebe. Em qualquer grupo social.

É por meio dessa herança que todo ser humano que vive entre humanos recebe um conjunto de formas simbólicas através das quais comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação a vida.


A cultura é, portanto, inexorável aos seres humanos. Dois ou milhões deles produzem cultura quando se juntam. Ninguém pode tirar a cultura de um ser humano porque ela penetra o indivíduo e, sem pedir licença, torna-se parte desse ser.Todo mundo tem cultura - ricos ou pobres, urbanos, rurais, de qualquer etnia , de qualquer território - todo ser humano ganha essa herança que oferece um significado à vida comunitária. E a cultura é plural, resiste a homogeneização, porque ainda somos diversos.


E o pobre que tem vida comunitária, também ganha sua herança; constrói seus valores, suas redes de cultura. Mas sim; a ele é negado, muitas vezes, o direito de usar sua herança, de exercer sua dignidade e, às vezes, até seus direitos humanos. Mas a herança é dele. Ele vai ter sempre.

E o pobre que tem vida comunitária, também ganha sua herança; constrói seus valores, suas redes de cultura. Mas sim; a ele é negado, muitas vezes, o direito de usar sua herança, de exercer sua dignidade e, às vezes, até seus direitos humanos

O que outros seres humanos podem tirar é o direito de exercer sua cultura. Eu até compreendo o que aquela pessoa quis dizer quando mencionou a frase que me fez sentar e escrever esse texto. Compreendo bem. Mas você percebe que quando faz essa afirmação você delega ao pobre uma condição de exclusão ao acesso à cultura – nesse caso alimentar?


Quando, na verdade, outros seres humanos é que tiram o direito de vivenciar/exercer/ sua cultura. E seus direitos humanos. Já pensou em falar: pobre não tem direitos humanos? Então essa frase - o pobre não tem cultura alimentar - demoniza a própria vítima, nega seu direito à condição humana e protege o carrasco.

Então essa frase - o pobre não tem cultura alimentar - demoniza a própria vítima, nega seu direito à condição humana e protege o carrasco.

Se você quer dizer que o pobre não pode comer o que é da sua cultura alimentar, que não tem escolhas portanto, você deve dizer: “ao pobre, é negado o direito de acesso a sua cultura alimentar”. Ou simplesmente, o pobre não tem escolha alimentar. Desse modo, você explicita as injustiças dos carrascos humanos que estão por trás da fome. Que é um flagelo de “homens sobre outros homens”, como dizia o Josué de Castro.


As injustiças que rondam a fome são, pelo menos, duas: a de não ter um direito humano assegurado; e da incapacidade que um ser humano é submetido por não poder escolher sua comida e utilizar sua herança cultural alimentar. Que todos têm.


As injustiças que rondam a fome são, pelo menos, duas: a de não ter um direito humano assegurado; e da incapacidade que um ser humano é submetido por não poder escolher sua comida



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